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sorrow waited, sorrow won

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A única coisa em que Nebi é capaz de pensar é que a culpa o acompanha a todo lugar, em toda ocasião.

Ela se faz presente quando ele abre os olhos depois de sabe-se lá quantas horas ou dias desacordado e quando finalmente consegue enxergar o rosto de Hali, ainda encoberto pela névoa que no momento constitui sua visão. A ficha demora a cair, se anunciando quando ela percebe, sobressaltada, que ele finalmente está ali e solta seus dedos frios para envolvê-lo num abraço sem o menor cuidado. Não importa que seu ombro esteja doendo de uma maneira tão insuportável que o faça trincar a mandíbula para aguentá-la em silêncio enquanto a irmã não é capaz de decidir-se entre pranto ou alegria.

O remorso arde como se estivesse vivendo tudo de novo quando a voz trêmula dela murmura, entre soluços e sorrisos, sobre o quão grata está por não ter perdido os dois de uma vez, e basta isso para fazê-lo implorar à sua própria mente que o deixe em paz por um instante que seja, mas não funciona. Dentro de alguns segundos, é ele quem chora agarrado à mão de Hali como se nada mais pudesse fazer algum sentido. É pesado, é sufocante.

(A culpa está sempre lá. Ela é sua melhor amiga e gosta de lembrá-lo disso.)

Por dias e dias, ele não é capaz de olhá-la nos olhos, nem mesmo quando ela se dispõe a cortar seus cabelos como tantas outras vezes ao longo dos anos. Podia ter sido diferente, sua consciência sussurra ao enxergar de canto o sorriso cheio de mágoa que Hali se força a dar para que a realidade possa parecer um pouco mais tolerável. Podia ter me recusado, podia ter sido uma pessoa melhor, podia mil coisas. Devia. Mas não foi, mais uma vez.

Parece ainda mais óbvio quando Olivia lhe entrega seus habituais olhares austeros ao longo das semanas, sempre com a mais sutil das doses de desgosto. Parece enxergar além da muralha que Nebi impôs dentro de si desde o início, como se analisasse a fundo cada pequena verdade que ele esconde sobre o que realmente ocorreu. Sobre a imagem dos olhos abertos de Yanni, que o assombram de uma maneira terrível durante madrugadas incontáveis — ou pior, ao avistar seu próprio reflexo no espelho todo. Santo. Dia, como algum tipo de brincadeira absurda. O equivalente a uma placa de neon no meio da escuridão, uma seta gigante piscando sobre sua cabeça.

(Ele era seu irmão. Uma merda de irmão, de fato. Mas agora você não é tão melhor que ele.)

Um lembrete cruel e irônico de seus atos, na forma de um par de olhos cinzentos.