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Published:
2017-09-13 12:25:42 -0400
Original:
Five Things Naomi Novik Said
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Cinco coisas que umx voluntárix da OTW disse

A cada mês, a Organization for Transformative Works - OTW (Organização para Obras Transformativas) fará uma sessão de perguntas e respostas com umx de nossxs voluntárixs sobre suas experiências na OTW. Estes posts expressam a opinião pessoal de cada voluntárix, que não necessariamente refletem as da OTW ou fazem parte de sua política.

Como parte da celebração do nosso décimo aniversário, temos uma retrospectiva especial para o "Cinco coisas" este mês. O post de hoje traz Naomi Novik, umx dxs fundadorxs da OTW, ex-membro do Conselho de Administração e atual membro da equipe de Acessibilidade, Design e Tecnologia. O texto a seguir é a transcrição de uma entrevista que foi editada por motivos de extensão e clareza.

Como foi o primeiro ano da OTW? O que você mais se recorda dele?

Eu não me recordo tão bem dos bons momentos; descobri que, ao longo dos anos, lembro-me mais dos problemas. Inicialmente tivemos muito trabalho para tranquilizar as pessoas com relação ao nosso projeto; por exemplo, de que elas não teriam problemas [jurídicos] e que haveriam formas das pessoas controlarem suas obras. Outro fato marcante naquele primeiro ano é que algumas pessoas esperavam ver resultados cinco minutos depois de começarmos! "Onde está o Archive of Our Own - AO3 (Nosso Próprio Arquivo)?". Mas tudo leva tempo, muitos dos problemas que surgem quando você está criando algo do zero aconteceram com a OTW. Mas a minha filosofia é aproveitar o impulso inicial e fazer as coisas; é melhor ter criado algo imperfeito do que não ter nada para mostrar no final.

Há certas maneiras em que uma organização sustentável não se mantém só com entusiasmo, ao mesmo tempo que você quer ser capaz de aproveitá-lo. Acredito que tivemos algumas dificuldades em como manter a organização funcionando no dia a dia e fazê-la crescer ao mesmo tempo. Não me lembro mais dos detalhes - tenho uma péssima memória para esse tipo de coisa, uma vez que não é mais meu problema, simplesmente esqueço.

Um exemplo disso foi resolver como seria Comunicação [para a OTW e como comitê]. [Xs voluntárixs iniciais] estavam todos no LiveJournal, então em relação a esse comitê, imaginei que seriam apenas as newsletters que temos e pessoas da OTW publicando em seus blogs e conversando com outros fãs individualmente. Esse método não funcionou muito bem e, apesar de não ter estado pessoalmente envolvida, eu me lembro da frustração de não termos sucesso em atingir o que queríamos.

Eu estava mais envolvida com a parte técnica, onde também tivemos várias discordâncias. Porque a questão era: fazíamos o design primeiro e então o desenvolvíamos, ou simplesmente começávamos pelo desenvolvimento? E tenho certeza que, no fim, acabamos fazendo as coisas do jeito certo; mergulhamos de cabeça e começamos a desenvolver. No geral, estou bem satisfeita com o sucesso dessa estratégia, sabemos que o AO3 não é perfeito e que tem coisas que ele não faz, então infelizmente não satisfez a todxs como poderia ter feito. É uma concessão que deve ser feita para se ter um arquivo.

Eu realmente acho que, fundamentalmente, foi a decisão certa, e não somos a primeira organização que precisou fazê-la. Há várias maneiras diferentes de tomar essa decisão e nós poderíamos ter decidido melhor. Agora, o custo dessa estratégia deve ser pago ao longo do tempo. Mas o mais importante para mim é que algo foi feito, e que há um esforço para que seja sustentável. Inicialmente, havia um tipo de impulso muito forte nos empurrando para estabelecermos algo e fazê-lo funcionar.

O que você vê como os momentos mais decisivos da OTW durante os seus dez anos?

Nós tínhamos uma grande vantagem no começo que era o fato de termos começado com um grupo pequeno onde todo mundo meio que se conhecia. Eu, Rebecca Tushnet (atual membro do comitê Jurídico da OTW) e Francesca Coppa (atual membro da equipe da Transformative Works & Cultures - TWC [Obras e Culturas Transformativas]) nos conhecíamos, e xs demais integrantes iniciais do Conselho estavam em uma área geograficamente próxima, então podíamos nos reunir e discutir sobre a OTW pessoalmente, algo que ajudou muito. Mas o grupo inicial também possuía bastante competência em diversas áreas - jurídica, acadêmica, de escrita e técnica. Os membros do primeiro Conselho foram a base de seus respectivos comitês. Então, era um pequeno grupo que conseguia trabalhar em conjunto e desenvolver seus projetos rapidamente.

Por um certo momento no meio do crescimento da OTW, nós perdemos isso. Estar no Conselho de Administração é um trabalho difícil e requer muito tempo para ser bem feito. Eu o fiz bem, e também mal. Não depende só do seu tempo disponível, mas também das pessoas com quem você trabalha, se você consegue se comunicar de maneira eficiente com elas e se existe um nível de confiança pessoal entre vocês.

Penso que passamos por uma fase terrível. Houve uma Segunda Onda; há pesquisas sobre este processo em organizações de fins não econômicos que demonstram que o que a OTW passou é um padrão comum: há umx fundadorx visionárix, ou uma equipe de fundadorxs, que acaba assumindo mais responsabilidades do que pode cumprir. Essa mentalidade deixa diversas questões pendentes. As pessoas que são então recrutadas e trazidas pela visão dxs fundadorxs veem os problemas causados pelo que foi feito no passado ou está acontecendo no momento, mas sentem-se frustradas por ou não terem acesso axs fundadorxs ou a meios de solucionar esses problemas. Então as questões se tornam antagônicas em nível pessoal ou organizacional. A OTW teve, então, várias pessoas concorrendo para o Conselho que se opunham ao que estava acontecendo no Conselho.

Mas, por mais que as coisas não estejam indo bem e Conselho não esteja fazendo um bom trabalho, seus membros sabem muito sobre o que está acontecendo na OTW pois houveram diversos debates e discussões que levaram até aquele momento, e eles estavam lá, e sabem os motivos pelos quais coisas estão ocorrendo. Mas não há mais confiança e grupo tornou-se incapaz de trabalhar em conjunto. E tivemos diversos Conselhos assim.

Então veio a Terceira Onda, que está contente em fazer seu trabalho na OTW, e não necessariamente quer fazer parte do Conselho. Mas elxs viram os problemas, elxs cresceram dentro da organização e sabem o que está acontecendo no topo. E embora elxs preferissem continuar a apenas fazer seu trabalho, sentem que devem tomar a iniciativa e solucionar a situação em que nos encontrávamos. Esse é o tipo de Conselho que temos no momento, e isso é ótimo. A OTW atravessou essas dificuldades, o que é importante porque muitas organizações não sobrevivem a esse período, a essas transições.

No começo, discordávamos muito, mas era uma base onde todxs se conheciam e respeitavam as habilidades dxs outrxs antes de formar o Conselho. Isso pode ser bom, mas também cria certo isolamento. Nos primeiros anos tudo era muito rápido - qualquer coisa que você quisesse tentar, você tentava. Não havia nada para te impedir. Não havia nada criado ainda, então você simplesmente ia lá e criava.

Então inicialmente não havia pessoas já fazendo algo de uma certa maneira que depois teria que ser mudada - você não pode fazer isso com as pessoas e interromper o trabalho e método delas desse jeito. Especialmente na área de programação, há um período de extrema criatividade no início. E, em geral, muitas pessoas gostam de construir coisas novas e não gostam tanto de manter as antigas. O início, então, era mais fácil, todo mundo colocava a mão na massa. Nenhum de nós tinha trabalhado antes em algo do tamanho que a OTW é agora, e estávamos descobrindo tudo. Para algumas pessoas é estressante começar, mas para outras a manutenção e o crescimento também são.

Durante seu trabalho com a OTW, qual é a realização pessoal de que você tem mais orgulho?

O AO3 existe, ele simplesmente existe. Em um nível metalinguístico, quando fiz o post sobre construir um arquivo, eu não pensava nisso como algo que eu fosse fazer. Até disse que era algo que precisávamos e que se alguém se propusesse a fazer, então eu ajudaria essa pessoa. Mas então percebi que ninguém estava se oferecendo e tive um pensamento, lembro-me dele, que iniciar esse projeto seria um enorme investimento de tempo, além do investimento emocional, e que me custaria oportunidades para o resto de minha vida. Mas eu fui em frente mesmo assim.

Aquela discussão original gerou um certo impulso, e precisávamos aproveitá-lo imediatamente. Há um breve momento no qual você pode trazer uma ideia para debate e, se você deixar o momento passar, a idéia se perde e não se desenvolve. Na hora que fiz post, eu estava irritada e eu sabia, sabia que nós tínhamos que fazer alguma coisa. É aquele clichê "Seja a mudança que você quer ver no mundo". E então eu falei com a Rebecca e a Francesca e disse "nós vamos fazer isso, mas eu não posso fazer sem vocês." E elas disseram "okay, nós vamos ajudar." Nós tínhamos conversado anteriormente sobre os problemas que gostaríamos que a OTW abordasse, e esse era o momento de fazer a diferença.

Qual você acredita ser o papel da OTW agora, e você acha que ele mudou desde a sua fundação? Que mudanças podem acontecer nos próximos 10 anos?

A primeira coisa que há na OTW agora e que não havia no começo é o trabalho de manutenção de projetos, como manter o AO3 de pé e funcionando, por exemplo. E há o AO3, e a Fanlore também, mas a manutenção da Fanlore é bem mais simples. Não é fácil de expandi-la, mas manter as coisas em ordem é simples. Mesmo a expansão do AO3 nos próximos dez anos será complicada, pois você tem que atualizá-lo para plataformas modernas. Discussões deveriam estar acontecendo, e eu imagino que estejam, sobre a versão 2.0 do AO3. Mas o AO3 não deveria ser o mesmo daqui a 10 anos, e nós precisamos começar a pensar sobre o plano [de como vamos chegar lá] antes cedo do que tarde.

Nós assumimos uma responsabilidade e sei que - mesmo nos períodos mais difíceis do Conselho, quando realmente pensei que todxs xs membros da equipe técnica iriam desistir da OTW e não haveria ninguém para manter o AO3 - a única coisa que mantinha as pessoas [como voluntárias], apesar de não haver nenhuma boa resolução para os problemas, era a inércia, a vontade de não abandonar o projeto. Pode haver um tempo em que o custo pessoal de continuar a trabalhar em nossos projetos seja muito alto, mas se eu for [pessoalmente] necessária para eles continuarem funcionando, então eles não vão sobreviver de qualquer jeito. Eu não podia me responsabilizar por continuar a manutenção e desenvolvimento do que tínhamos começado, eu tinha uma filha pequena e minha vida estava mudando. E eu na verdade tinha tentado conversar com o Conselho, que era difícil, que se você não confiar nos membros dos comitês para saber o que fazer e dar espaço a eles para fazer as coisas acontecerem, então o projeto não vai sobreviver. São poucas as pessoas o mantendo o projeto, poucas pessoas trabalhando com isso, mas agora há prestadorxs de serviços envolvidos para nos ajudar em nosso progresso, e um processo para tornar o AO3 mais sustentável.

Todos nós precisamos entrar em acordo, e também falhar, elegantemente. E pode ser que venha um dia em que as luzes não se acendam. Pode acontecer de não conseguirmos mais manter o site funcionando, mas manteremos as obras disponíveis para download e os dados para que alguém assuma o projeto. É o mesmo processo do qual o Open Doors (Portas Abertas) está tentando nos proteger; alguns sites simplesmente interrompem suas atividades, adeus, todas as suas obras foram perdidas. O iMeem fez isso com criadorxs de fan video. Um belo dia, "Ah, não vamos mais hospedar fan videos". Eu acredito firmemente que temos uma responsabilidade de não fazer isso, essa é nossa missão, essa é coisa mais importante que a OTW precisa fazer. E acredito que isso está acontecendo [que estamos mantendo os projetos funcionando] e estou contente com isso.

Também acredito que estamos juridicamente em uma posição mais firme do que no começo, o que é ótimo, e estou muito orgulhosa de tudo que a equipe do Ativismo Jurídico vem realizando. É maravilhoso ver suas vitórias. Creio que a OTW tem feito um ótimo trabalho em preservar obras pelo Portas Abertas, algo que gostaria que recebesse mais foco, a preservação. Mas outra coisa importante a se trabalhar é a próxima geração. O fandom é muito maior agora do que costumava ser, então não precisamos atingir a todxs, não precisamos que a OTW seja importante para todxs xs fãs. Mas é preciso estar onde os jovens estão, não há muito engajamento com o Wattpad, por exemplo. Então eu acredito que há pessoas que vem até o AO3, esperam coisas dele e então vão embora sem entender direito o que é que ele deveria ser.

Uma coisa que eu não gostaria que a OTW tentasse fazer, é tentar se tornar moderna e descolada e se reinventar para fazer isso. Queremos ser a biblioteca, o lugar sem graça mas que todo mundo conhece, e que está lá quando você precisa.

Qual foi a parte mais divertida em ser uma voluntária da OTW para você?

A construção do AO3. Eu adoro programação. Acho super divertido simplesmente construir e programar coisas. Eu amo fazer isso, é a melhor parte.


Agora que umx de nossxs fundadorxs disse cinco coisas sobre sua história, é a sua vez de participar! Há quanto tempo você conhece a OTW? Você usa os diferentes projetos? Há quanto tempo está no fandom?

Você também pode ver os posts Cinco Coisas anteriores escritos por outrxs de nossxs voluntárixs.

Esta notícia foi traduzida pela equipe voluntária de tradução da OTW. Para saber mais sobre o nosso trabalho, visite a página da Tradução no site transformativeworks.org.